Voar em Terra

As deambulações dementes de uma sombra cansada

Isto polui-me a mente, impede-me de raciocinar, o que raio é que estás a fazer, do que é que estás à espera, recursividade insuportável de atitudes e pensamentos que se revela quase impossível de evitar, eu apercebo-me dela, eu apercebo-me dela mas o que é que posso fazer, não é como se não houvesse alguma razão por detrás da mesma, não é como se ela não fizesse parte de mim, deixa-me louco, sim, mas parece que é já rotina, evidenciada fraqueza de carácter de que tanto tento fugir, quero ser quem não sou, diferente, talvez melhor ou pior, não sei, mas diferente, talvez assim as peças se encaixem e se movam, não sei, é frustrante, para dizer o mínimo, estou farto de mim, e é de solução fácil, no entanto, quiçá demasiado fácil, talvez me falte coragem, talvez me falte algo mais, e é suposto ir à procura, é suposto encontrar?

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Às vezes sonho demais

Às vezes sonho demais

Mal me permites o sono nessas alturas. Já quase passou um ano e ainda me lembro como se fosse ontem, as mais inúteis palavras e os mais minutos pormenores, irrelevâncias frustrantes de uma memória que insiste não dar folga a um espírito desencontrado, é pesado, é demasiado pesado, apetece partir alguma coisa, destruir alguma coisa, sei lá, talvez a dor resultante se equipare ao tamanho do sentimento que reinava então, sei lá, eu já nem sei o que pensar, e muito menos se alguma vez o soube, eu via o que queria ver, o que tinha aceite há muito e criado numa tentativa de fugir a uma aparente ineludível verdade, admito, não posso passar sem o fazer, como era eu suposto enfrentar a realidade de outra forma, a minha mente quebraria e este sítio ficaria às escuras, não lhe consigo imaginar outro resultado, que poderia eu ter feito senão o que fiz, tu tantas vezes chegaste perto de confirmar tudo aquilo que eu não queria saber e que poderia eu ter feito se não o que fiz, não me orgulho de mim mas também não recolho arrependimentos, quem sabe se poderia ter sido diferente, quem sabe se poderia ter sido pior, não arriscaria o que tenho agora para provar a validade de tal possibilidade, o que me circula no pensamento é demasiado valioso para o fazer, “eu amo-te”, “eu amo-te”, “eu amo-te”, frase repetida a um expoente louco, o eco vai perdendo a força original mas é rapidamente substituído por centenas de outros e isto não é algo que vá mudar, não é algo que eu queira que mude, desgraçada compleição a que não me permite tal vontade mas é com ela que eu existo, para bem ou para o mal é com ela que eu existo, irremediável devedora de horas e suspiros em algarismos demasiados, tal como tu, curiosamente, e já quase passou um ano, embora na verdade tenham sido bem mais, eu não me esqueci, eu nunca me vou esquecer, deste significado a algo, a alguém insignificante, como raio é que alguma vez me poderia esquecer disso?

Diálogo

Diálogo

Já estás aí há imenso tempo, o que é que estás a fazer? A pensar? Em quê? Hum, nunca imaginei que também te preocupasses com essas coisas. Não sei, pareces sempre tão distante, tão dentro do teu próprio mundo, às vezes esqueço-me que és como nós. Oh, não me leves a mal, não te estou a insultar nem nada, não é essa a minha intenção. É verdade que és um bocado diferente do habitual, mas isso não é propriamente mau. É quem tu és, é aquilo que te define, não te tens que te sentir mal por isso, desculpa se fiz passar essa ideia. De qualquer forma, ainda falta muito tempo até lá, devias aproveitar o que tens enquanto isso. Bom, admito que há dias em que também me sinto assim, mas acabo sempre por chegar à conclusão de que isso não me serve de nada a não ser que arranje maneira de fazer aqueles ponteiros parar, e a realidade é que essa solução ainda não me surgiu. Por isso, anima-te? Não sei, por outro lado também não desgosto de me sentir assim. É um bocado mais real, sabes? Aperceber-me que estou aqui, e que as coisas têm o mínimo de importância, é um bom contraste para todos aqueles momentos que passamos a ter conversas vazias com pessoas que pouco nos interessam numa tentativa de fazer algo chegar mais rápido ou mais lento. “Mais um pouco, é só mais um pouco”, e aguentamos até ao fim com um ligeiro sabor a melancolia na boca… vês, não és só tu que és um bocado diferente do habitual! Anda, está tudo à nossa espera e eu perdi a noção do tempo com esta conversa – mas olha, daqui para a frente, se precisares de alguém com quem falar ou algo do género… seja sobre o que for, não sei, podes vir ter comigo, eu não me importo… está bem?

Há luzes no meu céu

(sem título)

Eu não sei se alguma coisa mudou. Se o quero saber caso se confirme. A imaginação dói um bocado demais e o silêncio não ajuda, por isso permite-me o devaneio. Isto é um bocado diferente do que eu estava à espera. Eu sou um bocado diferente do que eu estava a espera. Não sinto falta de metade das coisas de que antecipei outrora. Arrisco dizer até que não sinto falta de quase nenhuma. É estranho. É imensamente estranho. Mas há algo que se manteve. Que não se alterou desde há já tanto tempo. Esse algo és tu. Ou melhor, é o que tu és em mim. Não há dia que passe sem que pense em ti. Mas eu sei que isto soa mal. Eu sei que estas palavras têm apenas o valor que têm. E eu sei que as coisas podem já não ser iguais. Contudo, pareceu-me importante que o dissesse. A imaginação dói um bocado demais e o silêncio não ajuda, e pareceu-me importante que o dissesse. É só.

(sem título)

(sem título)

Desliga-te, fá-lo nem que só por uns breves momentos, que isto já cansa, esta pressão, este constante desassossego, e nunca foi este o objectivo, tamanho desaprumo, haja saúde, mas de nada vale o alento agora, não por agora, por isso guarda-o, leva-o para um sítio que só tu conheças, vais precisar dele um dia e vais ver que esse dia vai chegar rápido demais, ou quiçá não o suficiente consoante a alma que te possuir nos teus suspiros, tudo tem uma razão de ser, era isso não era, as paisagens não se confundem e é possível concebê-lo à sua própria maneira, eu acredito nisso, apesar de tudo, portanto tenta fazê-lo, esquece tudo aquilo que existe e não te percas numa romaria de pensamentos pseudo-lúcidos que conscientemente te levam a lado nenhum, o engenho é simples mas a corda é branda e às vezes é fácil demais deslembrar, admitida tentativa de fuga à nossa ineludível compleição mas nem sempre será isso mau, sei lá, passamos tanto tempo grudados a um emaranhado de concepções que foi já desfeito repetidamente em tantas ocasiões anteriores por tantas pessoas que parar e respirar por vagos instantes se constitui como uma alternativa claramente superior, talvez o silêncio nos ajude a aproximar da realidade que tanto desejamos e nos guie pelo caminho que teremos que desbravar no futuro para o fazer, devaneio meu, certamente, que ajuda apenas a mente a não resvalar para uma humildade mais deprimente, mas não interessa, não interessa porque eu sei, porque eu aceitei isso já há muito e porque não me resta mais por onde esconder quando o vazio se revela, é por isso que também eu o faço, desligo-me, fecho os olhos para os custosos segundos que vão passando e guardo o meu alento para um dia que chegará rápido de mais, mas decididamente não rápido o suficiente.

Já te esqueceste?

Já te esqueceste?

  Surge de repente. A resposta devia ser óbvia e contudo é necessária alguma consideração. Porquê? As palavras desvanecem-se tão facilmente, é assustador. Tens a certeza que disseste o que disseste? Tens a certeza que ouviste o que ouviste? É impossível agarrar a verdade, não existem mãos desse tamanho. Não sei, limito-me a acreditar. Não há muito mais que possa fazer. Desagrada-me depositar a minha confiança em algo que não eu, mas o mundo não funciona de outra forma. É essa a resposta? Ah, que poder! Faz de mim quem eu não sou! Transforma-me numa coisa diferente!

  Porém isso não ocorre. A realidade manifesta-se quando tem que o fazer. Sempre tive esperança que ela fosse de outra cor; ingenuídade custosa de uma imaginação desleixada. Para quê pensar? A fadiga prospera em tal ambiente. Larga tudo aquilo que te prende. Afinal, que diferença é que isso faz? Tu sabes aquilo que sabes. Estás farto exactamente por o saberes. Mas não te percas no processo. É demasiado fácil que isso aconteça. Demasiado perigoso quando o é deliberado. O que é que mudou? Procura-o. Vais encontrá-lo, eventualmente. Não desistas. Nunca o faças. Eu estou aqui.

Destino

Destino

   Sempre odiei esta palavra. A simples ideia de que, independentemente do que façamos, do nosso esforço e da nossa vontade, nunca seremos capazes de alterar o rumo que nos foi desenhado outrora é inconcebível. Recuso-a tanto quanto não posso passar sem o fazer – é-me impossível aceitar um mundo em que os meus actos não dependem da minha própria volição, em que não sou mais que um fantoche despido de toda a responsabilidade e valor por uma sina qualquer e preciso de algo mais, de um significado maior, de saber que as coisas realmente interessam e que não fazem simplesmente parte de algo inevitável.

  Não me importo de carregar aos ombros as consequências de tudo aquilo que fiz ou deixei por fazer, são testemunhas da minha vivência e da minha existência algures na linha temporal deste imenso universo e não permito que o façam por mim. Eu sou quem sou, e exactamente por isso é que nunca ninguém senão eu obterá todos os meus sucessos e cometerá todos os meus erros. É um peso tremendo, e admito que há dias em que mal me consigo levantar, mas ainda assim… ainda assim prefiro este sofrimento à comodidade do destino.

  Porque o que eu te disse na altura, o que eu sentia… por mais encavacado que tenha sido, nada disso mudou, e não há um dia que passe em que ele não surja, não como algo predestinado mas como o seu exacto oposto. A realidade não me atinge de outra maneira…

Mudo

Mudo

  Já nem disso precisas, ó Luz. Escapaste, fugiste do vazio que te aprisionava, do que te mantia afastada de tudo aquilo que a razão teimava em guardar e desapareceste. É insuportável a forma como aquele sítio te reflecte, mais até do que o era na altura e ainda assim nada se compara a este descalabro. Dizer-te-ia para voltares, mas não sei se o quero tanto quanto duvido que me obedecerias. O taciturno silêncio corria inveterado já há demasiado tempo e por vezes pergunto-me se foste mesmo tu a causá-lo.

  É que eu lembro-me. Neste miserável e destituído consciente por onde vagueias agora, eu lembro-me de tudo. O seu significado, no entanto, perde-se na vaguidade do pensamento, no vacilo da hipótese, e o que resta é um nada impossível de compreender que conheço em demasia. Talvez esteja à procura de algo que não existe, de uma justificação para o injustificável, mas não me é possível acreditar na ofuscação do sentido quando a minha realidade não é essa.

  E daí, talvez a realidade não seja minha.

Chuva

Chuva

[audio http://37.235.56.204/resources/preview.mp3|titles=Ólafur Arnalds – Raein|loop=no]

  Sonhei contigo outra vez, hoje. Era de noite e a chuva não parava de cair. Não sei bem onde estávamos, era um local familiar mas ao mesmo tempo distante, característica realidade de quem dorme, distorcida por pedaços de memórias arrancados pela raiz e reorganizados de forma aleatória, era estranha, era estranha e porém eu conhecia-a inteiramente, sabia tudo o que havia para saber acerca dela, árvores a crescer em alcatrão e ruas sem fim de repente faziam sentido, ainda que não o fizessem na verdade.

  Estava frio. Sei-o pelas roupas que vestias, pelas mãos que não paravam de tremer por mais que tentasse, não o sentia, pouco interessava tão inútil sensação, mas tu, tu abraçaste-me por causa disso, perguntaste-me se eu estava melhor assim, e porquê, porque é que até em sonhos elas insistem em cair, o quão ridículo isto é, que eu sou, estava à espera de quê, é apenas natural, porque é que havia de ser diferente, porque é que havia de ser capaz de te sentir quando o mundo não passava de uma absurda fantasia?

  Desconheço o que te tinha trazido ali, o percurso daquela alucinação, e tudo porque não me lembro, simplesmente. A normalidade reside nesse esquecimento e todavia tal não acontece quando tu entras em cena, tentativas atrás de tentativas de fazer desvanecer a tua imagem somente a tornavam mais manifesta, eu não sei o que dizer e não, eu não percebo, recuso perceber, evidentemente, embora contestável se o é consciente, qual é o rumo, para onde é que se move… talvez o futuro abra caminho para um sítio diferente?

Entreacto

Entreacto

Congelou, parou de funcionar, simplesmente, O que é que se está a passar, o que é que tens, isto não é normal de ti, Eu sei, eu sei mas… não percebo, porquê agora, não faz qualquer sentido, é impossível fazer, o modo como o espírito se paralisou, como a mente se manteve em silêncio, não consigo controlar, tentativa após tentativa de recuperar a razão que se perdeu, de encontrar o caminho para um lugar menos afectado por tão sinistras entrelinhas, a inutilidade é assustadora, a verdade incontornável, atroz é a fadiga que me acompanha e decidi já não fugir, não vale a pena, nunca valeu.