Hoje, és magia

by João Abreu

Hoje, és magia

  Atraiçoa-me o sono, ainda agora. Fabricações de pavio escasso, inerentes ilusões e esperanças de dura cortada pela lucidez da realidade. É que ainda sinto o calor das tuas mãos nas minhas – mãos que não são tuas na verdade mas que o são em demasia. O sentimento associado, edificado por uma lógica sinuosa. E a sua reacção em mim. Há dias em que não sei para que é que fechei os olhos na lua anterior. Se tivesse sabido… e daí, talvez não. Talvez tenha valido o desapontamento, por mais passageira que tenha sido na sua natureza. Não sei. Não é de fácil resposta aquilo que muda consoante a alma que me possui a mim nos meus suspiros.

  E passou já tanto tempo. Assumiria a posse de uma memória distorcida não fosse essa uma falsa assumpção. Não é esquecido aquilo que se ausenta voluntariamente. Aquilo que se aparenta deslembrar. Existem outras obrigações. Responsabilidades. A paralisação não é opcional para quem insiste viver, mas a deriva é inevitável. Quanto tempo pretendes continuar assim? Onde é que achas que vais acabar? Tens que fazer alguma coisa. Eventualmente, tens que fazer alguma coisa.

  Por isso, hoje, mais do que nunca e nem que só para mim, és magia. Toda a beleza e todo o mistério do mundo concentrado num só local. Figura cujo sorriso dói um bocado demais e cujo olhar o acompanha. Aquilo que as mãos não conseguem segurar. Que a mente projecta nos locais mais improváveis. O sobressalto, o peso na respiração e a consequente efemeridade. A simples menção do teu nome traz-me de volta a uma realidade estranha.

  Esta não é senão a verdade. Eu nunca senti por ninguém aquilo que senti por ti. Aquilo que ainda sinto, por mais que não queira. Mas já não somos crianças. Já não temos idade para supostos amores eternos e romances de meio dia. E é este o fim. Um adeus com um sorriso forçado. Um desejo-te de tudo o melhor, do mais fundo do meu coração. Espero que sejas feliz. Que tenhas uma vida feliz. Não mereces menos que isso. Não deixes que ninguém te diga o contrário. Não me teria apaixonado por ti fosse esse o caso.

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