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by João Abreu

  Porquê? Tu sabes quem és, por isso, porquê? Já não é altura de parares de esconder toda a merda que está por baixo com um sorriso e um olá? Não te magoa fingires que és normal? Não te destrói por dentro? Tu não és como as outras pessoas – nunca serás – e quando é que te vai dar para aceitares isso?

  Acorda

  Os pensamentos que me assombram não são meus, não podem ser meus, são de alguém que me acompanha, alguém que não eu, alguém cujo desmesurado desengonço se aparenta de difícil controlo e, Custará assim tanto pensar, mas de que é que isso interessa, de que é que isso vale, porque é que não morres, continuas a existir, repugna-me inalar o mesmo ar que tu, e saber que és um entre muitos, inconsoláveis aberrações da natureza que negam aquilo de que prima a sua raça, porque é que não desaparecem juntamente com a obscena necessidade pela vossa inútil utilidade, rejeito comparações, carecem de significado suficiente para tais e, É essa megalomania, é ela, é isso, inerente superioridade de que se alimenta o teu ser, aceita-a, não a continues a negar, pela primeira vez na vida, sê quem verdadeiramente és.

  Acorda

  Nunca. Não por não ser real, mas exactamente por o ser em demasia. O que é que teria a ganhar? A verdade não interessa a ninguém. Não vivemos em tal mundo. Depois de tanto tempo a construir esta abstracção, esta plataforma de comunicação que se rege sob as ígneas regras sociais, não existe melhor solução.

  Acorda

  Ela existe, algures. Um ponto final marcado a ferro em paredes verteginosas. Falta encontrá-lo, no entanto. Concretizá-lo. E já faltou mais para ser capaz de dizer, de uma vez por todas, “Fim”.

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