Voar em Terra

As deambulações dementes de uma sombra cansada

Month: July, 2012

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  Porquê? Tu sabes quem és, por isso, porquê? Já não é altura de parares de esconder toda a merda que está por baixo com um sorriso e um olá? Não te magoa fingires que és normal? Não te destrói por dentro? Tu não és como as outras pessoas – nunca serás – e quando é que te vai dar para aceitares isso?

  Acorda

  Os pensamentos que me assombram não são meus, não podem ser meus, são de alguém que me acompanha, alguém que não eu, alguém cujo desmesurado desengonço se aparenta de difícil controlo e, Custará assim tanto pensar, mas de que é que isso interessa, de que é que isso vale, porque é que não morres, continuas a existir, repugna-me inalar o mesmo ar que tu, e saber que és um entre muitos, inconsoláveis aberrações da natureza que negam aquilo de que prima a sua raça, porque é que não desaparecem juntamente com a obscena necessidade pela vossa inútil utilidade, rejeito comparações, carecem de significado suficiente para tais e, É essa megalomania, é ela, é isso, inerente superioridade de que se alimenta o teu ser, aceita-a, não a continues a negar, pela primeira vez na vida, sê quem verdadeiramente és.

  Acorda

  Nunca. Não por não ser real, mas exactamente por o ser em demasia. O que é que teria a ganhar? A verdade não interessa a ninguém. Não vivemos em tal mundo. Depois de tanto tempo a construir esta abstracção, esta plataforma de comunicação que se rege sob as ígneas regras sociais, não existe melhor solução.

  Acorda

  Ela existe, algures. Um ponto final marcado a ferro em paredes verteginosas. Falta encontrá-lo, no entanto. Concretizá-lo. E já faltou mais para ser capaz de dizer, de uma vez por todas, “Fim”.

O Parque (tentativa #1)

– “Quando?”

– “De hoje a oito dias… desculpa, eu…”

– “Pára. Por favor.”

– “Desculpa…”

  A torrencial chuva que se fazia sentir desde manhã vinha apenas rematar a minha dor. Era palpável, agonizante, tal como a era a dela mas no meu egoísmo infantil dificilmente conseguia ver isso. As suas palavras haviam acabado de desmoronar o meu mundo, e as minhas fantasias idiotas acerca de um futuro juntos tornaram-se nada mais que isso – fantasias, sonhos que se aportaram outrora e que desapareceram com a mesma rapidez. É incrível como as coisas mudam de um momento para o outro. Em meros minutos, sumiu qualquer vestígio do sorriso que carregava imbecilmente na cara depois de ela me ter dito para ir ter ao parque, afogado entre incontáveis poças e pegadas lamacentas, e a única coisa que me surgia agora era o quanto eu odiava este lugar.

  Eu fugi. Tão rápido quanto pude, eu fugi. Nunca corri tanto na minha vida. Talvez estivesse a tentar ultrapassar a realidade que se impôs, ou talvez simplesmente as minhas lágrimas, não sei. A única coisa de que estava seguro na verdade era de que lá não podia ficar, o peso era insuportável muito para além do meu limite.

  Quando dei por mim estava no chão. Escorreguei num sítio qualquer. Olhei à minha volta numa tentativa de perceber onde estava. Se ela me tinha encontrado. Era o parque, ainda, e negativa era a resposta à segunda pergunta. Não sei porque é que o queria. Depois de ter fugido, porque é que ainda assim me magoou mais o facto de ela não estar ao meu lado. Quanto tempo é que estive aqui? A lua mantia-se visível através da densa folhagem e a chuva não dava indícios de cessar, não deve ter sido mais de que um quarto de hora desta noite que se aparentava interminável.