O Lugar

by João Abreu

O Lugar

  Ele não vai passar da meia-noite por mais que fiques a olhar para ele, assim o fizeram, é defeito de origem. Defeito intencionado, é certo, mas admito que me fazia perder a noção do tempo ao início. É uma questão de hábito. Hás-de lhe apanhar o jeito, eventualmente. Mas conta-me, estás perdido? Fazes a mínima ideia de como vieste aqui parar? Imagino que estejas a estranhar a tela branca, o inerente vazio, mas acredita quando te digo que não há nada mais natural que isto. Esta sala, este espaço, ele torna-se reconfortante se lhe deres uma hipótese. Onde estás? Não te vou responder a isso tanto quanto não o consigo fazer, estás em lado nenhum, estás em todo o lado, e no entanto o que vês são quatro paredes brancas e um relógio que julgas defeituoso. Confirmo-te no entanto que não estás morto, seria necessária uma história menos digna para descer a tal banalidade, e espero honestamente que não tenha sido essa a impressão com que ficaste da tua situação.

  Não não, tu estás num local singular, se é que lhe posso atribuir essa designação. Ele é o que fizeres dele – num momento estás aqui, noutro estás num sítio diferente onde a lua reina e a chuva se sente, recolecção familiar tua, suponho. Não existem limites para além de ti, se bem que se admita, e não me leves a mal, que já esses são de dimensão considerável. Podes fazer o que quiseres, mas tem em mente que os ponteiros daquele relógio irão continuar sem se mover. É meia-noite, não te esqueças disso.

  Quem sou eu? Também não o sei, o simples acto de existir sacia-me a vontade e nunca lhe dei grande importância, eu sou eu, não necessito de mais. Talvez mais pertinente seja a questão, quem és tu? Mas não te massacrarei sabendo já as razões que trazem pessoas a este lugar. Já fiz demasiados discursos acerca da futilidade dos vossos assuntos para saber que de nada servem, por isso, e simplesmente, diverte-te, faz tudo o que tens a fazer, a partir deste momento este mundo é teu juntamente com toda a responsabilidade associada ao mesmo.

  Apenas, tenta não te perder. Tu sabes quem és, ou pelo menos deves ter alguma noção de ti, não largues isso. Há consequências para as tuas acções, nem que sejam para contigo mesmo, e não é algo que devas ignorar. Talvez um dia decidas continuar. Voltar. Ou porque te cansaste ou por qualquer outra razão, não sei. E nesse dia vais perceber o que te estou a dizer.

  Até lá, boa sorte. Ou, não sei, diverte-te. Vou ficar à tua espera. Espero que ainda te lembres de mim então.

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