Coisas que me irritam neste preciso momento

by João Abreu

  • Irrita-me ter vontade de escrever mas sem saber sobre o quê, passar horas a ponderar assunto ou a procurar luz em coisas aleatórias, e maior parte das vezes acabar sem qualquer resultado;
  • Irrita-me ter que ouvir a mesma música durante horas a fio (no actual caso sendo esta) numa tentativa parva de tentar manter intacta a inspiração que me atingiu inicialmente e que me fez pegar na metafórica caneta e papel;
  • Irrita-me o sol e o Verão, ou talvez simplesmente o calor, porque eu não serei eu sem ser do contra;
  • Irrita-me o facto de pensar demasiado nas coisas, ao ponto de me imobilizar devido ao medo que todas as minhas previsões negativas se concretizem e eu fique num local menos feliz;
  • Irrita-me saber que tenho razão em o fazer muitas vezes;
  • Irrita-me mais aperceber-me depois que não a tenho;
  • Irrita-me a estupidez, tanto própria como alheia, as acções sem sentido e as palavras inúteis, não me falhando aqui o ligeiro trago a hipocrisia;
  • Irrita-me não me saber controlar em alturas desapropriadas e o oposto nas situações contrárias;
  • Irrita-me não conseguir aproveitar o momento devido a reminiscências patetas, ou pior, devido a devaneios desadequados acerca de coisas que apenas acontecerão no futuro, se o acontecerem de todo;
  • Já disse que me irrita aquela música?
  • Irrita-me querer alguma coisa e não fazer nada para o/a obter, sempre preso a um ideal de preguiça ou de sobre-ponderações recursivas que me levam a lado nenhum a uma velocidade estonteante;
  • Irrita-me não querer nada quando me perguntam, “O que é que queres?”, embora me irrite mais quem me faz essa pergunta;
  • Irrita-me o prevalente diletantismo (eufemismo, talvez?) do qual não me consigo despegar;
  • Irrita-me ver-me incapaz de ler metade das coisas que quero ler e capaz de ler tudo aquilo que não quero, Cosmos, há quanto tempo por aqui pairas!
  • Irritam-me as expectativas que as pessoas têm de mim, não por maldade mas simplesmente porque sim, dispenso a responsabilidade inerente às mesmas, aquele bichinho que está sempre lá a dizer que aquilo ainda não está bom o suficiente;
  • Irrita-me não fazer metade das coisas que digo que quero fazer;
  • Irrita-me saber que já desperdicei demasiadas oportunidades, e que o continuarei a fazer para sempre no futuro;
  • Irrita-me desiludir quem quer que seja, excepto a mim próprio, talvez seja o único que não espere absolutamente nada de mim, hah;
  • Irrita-me estar a começar todos estes pontos com a expressão “Irrita-me” (exceptuando um, vá), imaginar a excruciante leitura disto e a eventual tortura que será fazê-lo em voz alta;
  • Irrita-me não saber escrever tão bem quanto gostaria, assim como outras milhentas coisas de que pouparei o pobre coitado/a que está a ler isto de enumerar aqui;
  • Irrita-me saber que daqui a uns anos vou achar que metade do que disse ou escrevi é uma enorme parvoíce resultante duma efémera e ignóbil juventude;
  • Irrita-me aperceber-me que já não sou uma criança e que já não tenho 15 anos;
  • Irrita-me ser mal compreendido, não gosto de confusões que podiam muito bem ser evitadas com o mínimo de esforço;
  • Irritam-me esperanças parvas sem qualquer sustento;
  • Irritam-me mais as pessoas que se agarram a elas (do género, eu);
  • Irritam-me pessoas que não pensam por si próprias, e que deixam tudo para outrem;
  • Irrita-me a ausência de esforço, consideração, somos todos por todos, à falta disso deixaremos de nos achar humanos, digo eu;
  • Irrita-me mesmo mesmo mesmo a sério estar-me a distrair de 5 em 5 minutos com coisas aleatórias provenientes dos tubos que tão cheios de gatos e imagens menos apropriadas estão, tenho que começar a fazer alguma coisa acerca disto;
  • Irrita-me não ser quem quero ser, não estar com quem quero estar, não estar onde quero estar, estou bem onde não estou, ou é um espaço impossível numa referência mais contemporânea;
  • Irrita-me ir avante com soluções estúpidas mesmo sabendo que são estúpidas;
  • Irrita-me quando não faço o contrário;
  • Irrita-me dizer que não quando quero dizer que sim;
  • Irrita-me sentir inveja de quem quer que seja, seja pela razão que seja, sentir-me menor por causa disso, ou pior, até pseudo-deprimido;
  • Irritam-me pessoas falsas, incapazes de se aperceberem de quem realmente são e de perceberem que nem todos são tão cegos quanto elas;
  • Irrita-me continuar a sentir o mesmo por ti e continuar sem fazer nada, andando para a frente ou não, mantendo-me numa semi-estase da qual me custa sair e de onde só me saem estes textos estúpidos em dias;
  • Irrita-me manter uma fachada de uma personalidade e uma fachada de uma conversa quando na verdade o que quero ser ou dizer é algo de completamente diferente, simplesmente para manter um suposto status quo que alguém se dignou a estabelecer numa certa altura da linha temporal e que eu, aparentemente, não posso senão obedecer;
  • Irrita-me não saber quanto mais devo escrever para que seja suficiente, para que não fique com mais nada a dizer de tudo aquilo que quero dizer, não é que queira ser uma página aberta mas às vezes parece útil, talvez assim alguma coisa mude assim, ou quiçá alguém leia, até;
  • E irrita-me isto, já, com licença.
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