Voar em Terra

As deambulações dementes de uma sombra cansada

Month: June, 2012

“Time Waits For No One”

"Time Waits For No One"

  E ainda estou a decidir se o encontro no seu brilhantismo ou na sua depressão. É tudo tão dolorosamente transitório, tão desprovido de qualquer significado tangível, que começo a aperceber-me que é aí que está o verdadeiro charme das coisas. Os opostos potenciam-se de tal forma que se tornam inseparáveis, e essa realidade não é senão deliciosamente irónica. Aproveita-o enquanto o tiveres, mas lembra-te que também é importante não o teres, não te esqueças disso, está bem?

  Não sei, às vezes é tão fácil fugir, dá impressão que apreciamos o absurdo ou simplesmente tudo que ele envolve. É que não existem soluções no fundo desse copo por mais de ti que esteja nele ou dele em ti, tal como não o existem em palavras ocas ou lágrimas sentidas, emoções falsas ou memórias perdidas, e eu estou farto de fingir e não quero cometer o mesmo erro que tu. Não vou mentir e afirmar que as coisas não mudam, a ingenuidade e a inocência não me atingem assim tão forte, mas a verdade actual é esta e, não sei, talvez ela valha de alguma coisa. Lamento as implicações a quem me compete, mas também não vou mentir e afirmar que as coisas mudaram, não sei, é de mim, eu sou parvo assim.

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Coisas que me irritam neste preciso momento

  • Irrita-me ter vontade de escrever mas sem saber sobre o quê, passar horas a ponderar assunto ou a procurar luz em coisas aleatórias, e maior parte das vezes acabar sem qualquer resultado;
  • Irrita-me ter que ouvir a mesma música durante horas a fio (no actual caso sendo esta) numa tentativa parva de tentar manter intacta a inspiração que me atingiu inicialmente e que me fez pegar na metafórica caneta e papel;
  • Irrita-me o sol e o Verão, ou talvez simplesmente o calor, porque eu não serei eu sem ser do contra;
  • Irrita-me o facto de pensar demasiado nas coisas, ao ponto de me imobilizar devido ao medo que todas as minhas previsões negativas se concretizem e eu fique num local menos feliz;
  • Irrita-me saber que tenho razão em o fazer muitas vezes;
  • Irrita-me mais aperceber-me depois que não a tenho;
  • Irrita-me a estupidez, tanto própria como alheia, as acções sem sentido e as palavras inúteis, não me falhando aqui o ligeiro trago a hipocrisia;
  • Irrita-me não me saber controlar em alturas desapropriadas e o oposto nas situações contrárias;
  • Irrita-me não conseguir aproveitar o momento devido a reminiscências patetas, ou pior, devido a devaneios desadequados acerca de coisas que apenas acontecerão no futuro, se o acontecerem de todo;
  • Já disse que me irrita aquela música?
  • Irrita-me querer alguma coisa e não fazer nada para o/a obter, sempre preso a um ideal de preguiça ou de sobre-ponderações recursivas que me levam a lado nenhum a uma velocidade estonteante;
  • Irrita-me não querer nada quando me perguntam, “O que é que queres?”, embora me irrite mais quem me faz essa pergunta;
  • Irrita-me o prevalente diletantismo (eufemismo, talvez?) do qual não me consigo despegar;
  • Irrita-me ver-me incapaz de ler metade das coisas que quero ler e capaz de ler tudo aquilo que não quero, Cosmos, há quanto tempo por aqui pairas!
  • Irritam-me as expectativas que as pessoas têm de mim, não por maldade mas simplesmente porque sim, dispenso a responsabilidade inerente às mesmas, aquele bichinho que está sempre lá a dizer que aquilo ainda não está bom o suficiente;
  • Irrita-me não fazer metade das coisas que digo que quero fazer;
  • Irrita-me saber que já desperdicei demasiadas oportunidades, e que o continuarei a fazer para sempre no futuro;
  • Irrita-me desiludir quem quer que seja, excepto a mim próprio, talvez seja o único que não espere absolutamente nada de mim, hah;
  • Irrita-me estar a começar todos estes pontos com a expressão “Irrita-me” (exceptuando um, vá), imaginar a excruciante leitura disto e a eventual tortura que será fazê-lo em voz alta;
  • Irrita-me não saber escrever tão bem quanto gostaria, assim como outras milhentas coisas de que pouparei o pobre coitado/a que está a ler isto de enumerar aqui;
  • Irrita-me saber que daqui a uns anos vou achar que metade do que disse ou escrevi é uma enorme parvoíce resultante duma efémera e ignóbil juventude;
  • Irrita-me aperceber-me que já não sou uma criança e que já não tenho 15 anos;
  • Irrita-me ser mal compreendido, não gosto de confusões que podiam muito bem ser evitadas com o mínimo de esforço;
  • Irritam-me esperanças parvas sem qualquer sustento;
  • Irritam-me mais as pessoas que se agarram a elas (do género, eu);
  • Irritam-me pessoas que não pensam por si próprias, e que deixam tudo para outrem;
  • Irrita-me a ausência de esforço, consideração, somos todos por todos, à falta disso deixaremos de nos achar humanos, digo eu;
  • Irrita-me mesmo mesmo mesmo a sério estar-me a distrair de 5 em 5 minutos com coisas aleatórias provenientes dos tubos que tão cheios de gatos e imagens menos apropriadas estão, tenho que começar a fazer alguma coisa acerca disto;
  • Irrita-me não ser quem quero ser, não estar com quem quero estar, não estar onde quero estar, estou bem onde não estou, ou é um espaço impossível numa referência mais contemporânea;
  • Irrita-me ir avante com soluções estúpidas mesmo sabendo que são estúpidas;
  • Irrita-me quando não faço o contrário;
  • Irrita-me dizer que não quando quero dizer que sim;
  • Irrita-me sentir inveja de quem quer que seja, seja pela razão que seja, sentir-me menor por causa disso, ou pior, até pseudo-deprimido;
  • Irritam-me pessoas falsas, incapazes de se aperceberem de quem realmente são e de perceberem que nem todos são tão cegos quanto elas;
  • Irrita-me continuar a sentir o mesmo por ti e continuar sem fazer nada, andando para a frente ou não, mantendo-me numa semi-estase da qual me custa sair e de onde só me saem estes textos estúpidos em dias;
  • Irrita-me manter uma fachada de uma personalidade e uma fachada de uma conversa quando na verdade o que quero ser ou dizer é algo de completamente diferente, simplesmente para manter um suposto status quo que alguém se dignou a estabelecer numa certa altura da linha temporal e que eu, aparentemente, não posso senão obedecer;
  • Irrita-me não saber quanto mais devo escrever para que seja suficiente, para que não fique com mais nada a dizer de tudo aquilo que quero dizer, não é que queira ser uma página aberta mas às vezes parece útil, talvez assim alguma coisa mude assim, ou quiçá alguém leia, até;
  • E irrita-me isto, já, com licença.

O Lugar

O Lugar

  Ele não vai passar da meia-noite por mais que fiques a olhar para ele, assim o fizeram, é defeito de origem. Defeito intencionado, é certo, mas admito que me fazia perder a noção do tempo ao início. É uma questão de hábito. Hás-de lhe apanhar o jeito, eventualmente. Mas conta-me, estás perdido? Fazes a mínima ideia de como vieste aqui parar? Imagino que estejas a estranhar a tela branca, o inerente vazio, mas acredita quando te digo que não há nada mais natural que isto. Esta sala, este espaço, ele torna-se reconfortante se lhe deres uma hipótese. Onde estás? Não te vou responder a isso tanto quanto não o consigo fazer, estás em lado nenhum, estás em todo o lado, e no entanto o que vês são quatro paredes brancas e um relógio que julgas defeituoso. Confirmo-te no entanto que não estás morto, seria necessária uma história menos digna para descer a tal banalidade, e espero honestamente que não tenha sido essa a impressão com que ficaste da tua situação.

  Não não, tu estás num local singular, se é que lhe posso atribuir essa designação. Ele é o que fizeres dele – num momento estás aqui, noutro estás num sítio diferente onde a lua reina e a chuva se sente, recolecção familiar tua, suponho. Não existem limites para além de ti, se bem que se admita, e não me leves a mal, que já esses são de dimensão considerável. Podes fazer o que quiseres, mas tem em mente que os ponteiros daquele relógio irão continuar sem se mover. É meia-noite, não te esqueças disso.

  Quem sou eu? Também não o sei, o simples acto de existir sacia-me a vontade e nunca lhe dei grande importância, eu sou eu, não necessito de mais. Talvez mais pertinente seja a questão, quem és tu? Mas não te massacrarei sabendo já as razões que trazem pessoas a este lugar. Já fiz demasiados discursos acerca da futilidade dos vossos assuntos para saber que de nada servem, por isso, e simplesmente, diverte-te, faz tudo o que tens a fazer, a partir deste momento este mundo é teu juntamente com toda a responsabilidade associada ao mesmo.

  Apenas, tenta não te perder. Tu sabes quem és, ou pelo menos deves ter alguma noção de ti, não largues isso. Há consequências para as tuas acções, nem que sejam para contigo mesmo, e não é algo que devas ignorar. Talvez um dia decidas continuar. Voltar. Ou porque te cansaste ou por qualquer outra razão, não sei. E nesse dia vais perceber o que te estou a dizer.

  Até lá, boa sorte. Ou, não sei, diverte-te. Vou ficar à tua espera. Espero que ainda te lembres de mim então.

Isto polui-me a mente, impede-me de raciocinar, o que raio é que estás a fazer, do que é que estás à espera, recursividade insuportável de atitudes e pensamentos que se revela quase impossível de evitar, eu apercebo-me dela, eu apercebo-me dela mas o que é que posso fazer, não é como se não houvesse alguma razão por detrás da mesma, não é como se ela não fizesse parte de mim, deixa-me louco, sim, mas parece que é já rotina, evidenciada fraqueza de carácter de que tanto tento fugir, quero ser quem não sou, diferente, talvez melhor ou pior, não sei, mas diferente, talvez assim as peças se encaixem e se movam, não sei, é frustrante, para dizer o mínimo, estou farto de mim, e é de solução fácil, no entanto, quiçá demasiado fácil, talvez me falte coragem, talvez me falte algo mais, e é suposto ir à procura, é suposto encontrar?