Às vezes sonho demais

Às vezes sonho demais

Mal me permites o sono nessas alturas. Já quase passou um ano e ainda me lembro como se fosse ontem, as mais inúteis palavras e os mais minutos pormenores, irrelevâncias frustrantes de uma memória que insiste não dar folga a um espírito desencontrado, é pesado, é demasiado pesado, apetece partir alguma coisa, destruir alguma coisa, sei lá, talvez a dor resultante se equipare ao tamanho do sentimento que reinava então, sei lá, eu já nem sei o que pensar, e muito menos se alguma vez o soube, eu via o que queria ver, o que tinha aceite há muito e criado numa tentativa de fugir a uma aparente ineludível verdade, admito, não posso passar sem o fazer, como era eu suposto enfrentar a realidade de outra forma, a minha mente quebraria e este sítio ficaria às escuras, não lhe consigo imaginar outro resultado, que poderia eu ter feito senão o que fiz, tu tantas vezes chegaste perto de confirmar tudo aquilo que eu não queria saber e que poderia eu ter feito se não o que fiz, não me orgulho de mim mas também não recolho arrependimentos, quem sabe se poderia ter sido diferente, quem sabe se poderia ter sido pior, não arriscaria o que tenho agora para provar a validade de tal possibilidade, o que me circula no pensamento é demasiado valioso para o fazer, “eu amo-te”, “eu amo-te”, “eu amo-te”, frase repetida a um expoente louco, o eco vai perdendo a força original mas é rapidamente substituído por centenas de outros e isto não é algo que vá mudar, não é algo que eu queira que mude, desgraçada compleição a que não me permite tal vontade mas é com ela que eu existo, para bem ou para o mal é com ela que eu existo, irremediável devedora de horas e suspiros em algarismos demasiados, tal como tu, curiosamente, e já quase passou um ano, embora na verdade tenham sido bem mais, eu não me esqueci, eu nunca me vou esquecer, deste significado a algo, a alguém insignificante, como raio é que alguma vez me poderia esquecer disso?

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