A Harmonia do Nada

by João Abreu

A Harmonia do Nada

  Para onde estás a olhar? Mal consigo acompanhar a trajectória que os teus olhos descrevem, o cenário que pintas na tua mente, desconheço as suas cores, as suas formas, questiono-me por vezes se vês o mesmo que eu ou se na verdade percepcionas as coisas de uma maneira diferente, é possível, é mais do que provável, a distância que existe é enorme e não há um dia que passe sem que ela se faça visível, dolorosa e um tanto mesquinha, tal como ela é, já não sei onde lhe pegar, a fuga da imaginação arrastou a lucidez consigo e abandonou-me friamente na fronteira da demência, valerá a pena, sequer, o ânimo, a contenção, valerá a pena continuar ou será que as luzes se apagaram?

  Não me convém a escuridão, regressar a tão amargo espírito, tão anestesiada vontade, custa pensar, até, saber que os pés têm que se mover apesar de tudo, qual é o interesse, o empenho, no meio de isto tudo só apetece desaparecer e a realidade não é senão cruel, um eterno jogo maquiavélico controlado por uma teia de desventuras e desencontros planeados com o intuito de se tornarem naquilo que são, nada mais, nada menos.

  Odeio isto, estar aqui, saber que… Enfim, destrói-me a alma tão completamente, a razão, o sentido, ia jurar que a única coisa que vejo és tu, e contudo continuo sem fazer a mínima ideia de para onde estás a olhar, não sei se intencional ou não mas ainda assim, o que eu quero, ou, o que tu queres, já mo disseste, não já?

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