Voar em Terra

As deambulações dementes de uma sombra cansada

Month: September, 2011

Ruído

Porque é que choras? Porque é que gritas? Porque é que sofres? Porque é que finges? Porque é que esqueces? Porque é que foges? Porque é que não te mexes? Porque é que olhas? Porque é que pensas? Porque é que acreditas? Porque é que tentas? Porque é que sonhas? Porque é que pintas? Porque é que sujas? Porque é que escreves? Porque é que divagas? Porque é que falas? Porque é que fartas? Porque é que destróis? Porque é que cais?  Porque é que ardes? Porque é que queimas? Porque é que não sangras? Porque é que não partes? Porque é que te controlas? Porque é que não enlouqueces? Porque é que mentes? Porque é que te esforças? Porque é que te matas? Porque é que não morres? Porque é que não atiras? Porque é que não cortas? Porque é que fechas? Porque é que não abres? Porque é que não desistes? Porque é que já o fizeste? Porque é que continuas a pensar? Porque é que esperas? Porque é que não vês? Porque é que escondes? Porque é que vives? Porque é que sentes? Porque é que amas? Porque é que suspiras? Porque é que te lembras? Porque é que ouves? Porque é que não largas? Porque é que não acabas? Porque é que não avanças? Porque é que não queres avançar? Porque é que vês o que não existe? Porque é que imaginas o que não pode existir? Porque é que não páras? Porque é que não encontras a verdade? Porque é que procuras a mentira? Porque é que te imobiliza a vontade? Porque é que te trava a saudade? Porque é que não consegues dormir? Porque é que não consegues desligar? Porque é que te consome o ruído? Porque é que desapareces na ilusão? Porque é que és?

Porque é que não consegues não ser?

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  Sinto-me perdido. Os olhos não conseguem ver o caminho que os meus pés pisam e a mente entretém-se a cravar nas paredes da consciência todos os rumos que lhe é passível de imaginar. É um desastre, e embora não inteiramente inesperado, a realidade tende a ser um tanto diferente quando encarada sem a possibilidade de ser repetida noite após noite consoante a nossa vontade.

  Se eu saltar para o meio deste nevoeiro, será que ele me apanha, me ampara a queda e me consome na sua aparente imensidão? Eu gostava de tentar. Mais do que tudo, eu gostava de tentar, de esquecer aquilo que sei ou penso saber acerca desta máquina a que chamamos mundo, de queimar o livro que contém todas as regras que nos limitam e nos fazem crer que não somos capazes de fazer o que realmente queremos e simplesmente… tentar. Seria o último ponto da minha vida, e consolar-me-ia o facto de ter sido eu a pintá-lo.

  O que estás a fazer ou, porquê, a que sítio julgas que isso te leva. Já é hora, e tu sabes disso. A solução não esta aí, nunca esteve, e é impossível fazeres com que as linhas convirjam. Terem-se cruzado, sequer, foi demais, e já é hora. Por isso despacha-te. O mundo inteiro está à tua espera.

  Pois que espere. Não me convém o bom senso, a sua banalidade não ressoa perante o ridículo do meu ser e eu não sou capaz de passar sem resistir à razão. O que eu quero, confusão de minúsculas vontades descontroladas, olhar, sentir, abraçar, apertar e desta sem nunca te voltar a largar, a insensatez do afecto, o desespero da verdade e o esgotamento da saudade, saber que é real, ter essa confirmação constante, devaneios ardentes que mal permitem o sono. Jurada loucura, decerto, de um conflito constante entre fragmentos de sentido que dele nada possuem.

  O mundo que espere. Não é meu, afinal, que nesse existe apenas uma forma.