A Queda das Memórias

by João Abreu

A Queda das Memórias

  Há tantas coisas que ficam por ser ditas ao longo de uma vida inteira, tantas conversas que ficam por ser tidas, tantos momentos que ficam por ser experienciados, e as razões, enquanto algumas permanecem emolduradas num arrependimento fatal, outras são aquelas de que simplesmente não nos conseguimos recordar – se o sinto já nestes lacónicos vinte anos, custa-me sequer imaginar como será daqui para a frente, e é um tanto infeliz, não é? Saber que no final, mesmo antes da chama se apagar, saber que o último pensamento que rumará pela vastidão da nossa mente será um principado pelo fatídico, E se?

  Num instante sou capaz de me lembrar de imensas situações que gostaria de modificar e as justificações não são sempre as mesmas, percorrendo o espectro da redenção à curiosidade. Será que desgosto da realidade actual, será que era capaz de a desfigurar se oportunidade surgisse? Não sei.

  Vem-me um sorriso aos lábios quando penso em todas aquelas pessoas que já passaram por mim, numa ou noutra altura, e que me afectaram o suficiente para que eu não me tenha conseguido esquecer delas – algumas não têm cara, outras não têm voz, muitas vezes o mero facto de saber que elas estiveram lá é tudo que interessa, tenho saudades de projecções nostálgicas que podem ou não ter existido, a imaginação é complexa e com o tempo torna-se árduo distinguir em lembranças o que é real do que não é.

  Terei sentido o que penso que senti numa determinada altura? Terei falhado o que penso que falhei numa determinada altura? É quase impossível responder a este tipo de perguntas, a memória vai-se deteriorando com a passagem das estações e é difícil recuperá-la. Não nego que, por vezes, me recordo melhor de dias, noites, ou até meras horas, do que anos inteiros, mas mesmo nesses casos, por quanto tempo é que iremos poder afirmar isso? Os pormenores são as primeiras coisas a ir, seguidos dos momentos menos relevantes, e a partir daí é sempre a descer. É inevitável…

  Voltando agora à questão anterior, julgo que seria capaz de alterar o meu passado. É verdade que o caminho que nos trouxe até aqui é o mesmo que moldou a nossa pessoa, que nos fez quem somos neste preciso momento, e ainda assim eu modificá-lo-ia. Há coisas e coisas, e eu dava tudo para poder voltar, para poder agir de uma maneira diferente, para poder dizer tudo aquilo que ficou por ser dito. Um tanto inocente, eu sei, e contudo ao final do dia esta ideia nunca passará de um sonho, de uma luz que os meus braços não conseguem alcançar por mais que os estique, e eu revelo-me pouco interessado na caracterização que me podem atribuir por possuir tão infantil fantasia.

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