Carta Aberta Para “Ti” (sim, para “ti”, tu sabes quem és)

by João Abreu

Aveiro, Madrugada do Dia 09 de Agosto de 2011

Para a pessoa que já há meses que não me sai da cabeça, dia sim, dia sim, pela qual eu experimento um enorme espectro de sentimentos que um pouco de tudo abrange, e que há quantizáveis instantes me fez mandar um enorme “Olha foda-se” a um volume não passível de ser tolerado a tais horas da madrugada pelos pobres coitados que não possuíram a rica oportunidade de se mobilizarem para as regiões mais a sul desta miserável terra, onde ao menos gastariam uma porção da sua insignificante vida em temperaturas consideradas amenas por indivíduos cujas raízes se localizam no continente africano:

  Tens razão. Em tanta coisa tens razão. E em tanta coisa não a tens. Desconheço a proporção propriamente dita, talvez 50/50, 30/70, ou quiçá 90/10, não sei mesmo, teria que planear uns estudos científicos no campo para ter a certeza mas talvez levem algum tempo e necessites de uma cadeira para te sentares à espera, acontece que não a tenho, passemos à frente então que também não interessa particularmente – onde é que eu ia? Ah sim: quero deixar bem claro logo à partida que a intenção disto não é fazer-te mudar de ideias ou algo do género, primeiro porque isso aparenta ser mais difícil de concretizar do que fazer malabarismo ao pé-coxinho com cinco mamutes pintados de cor-de-laranja ao mesmo tempo que eles jogam às cartas e fazem stand-up comedy para uma audiência de girafas surdas num submarino em cima de uma palmeira à beira de um vulcão em erupção, e segundo porque, bem, seria um tanto ridículo tentar fazê-lo através deste meio.

  Agora que isso está esclarecido: pelas coisas em que não tens razão, és parva. Se isto te ofendeu, não te preocupes nem entres em pânico nem nada, que eu sou pior ainda. E daí, pensando bem, uma pessoa não deve determinar o seu valor através de comparações com coisas más mas sim com coisas boas; está bem, pronto, se quiseres mesmo muito podes ficar ofendida, é compreensível nestes termos. Não recomendo, mas podes. De uma maneira ou doutra, fico com essa impressão de ti, custa-me acreditar que acreditas em certas coisas e aceitar que aceitas certas coisas, mesmo quando eu te as tento negar a todo o custo. Admito que não tenho as respostas para tudo e que não consigo controlar o futuro por mais que queira (não estaria aqui se conseguisse, parece-me), e contudo acho honestamente que quase te obrigas a ti mesma a viver com essas ideias. O mundo é o que é e acaba quando acaba, não há mais nada para além disto, este tempo, este segundo que estás vivenciar enquanto lês isto, tu nunca o vais voltar a ver na tua vida inteira; estavas destinada a gastá-lo desse modo? Não brinques comigo, não me insultes de tal modo, desgosto de pessoas que o fazem. Cada um controla o que faz, tal como cada qual escolhe o futuro que quer ter. É este o teu futuro? E é este o meu? Foi para isto que serviram tantas emoções e tantas lágrimas e tanto sei-lá-mais-quê? Não te iludas, és tu que estás a responder a estas perguntas, não é um tipo com o sobrenome de “Sparks” que acha piada a histórias tacanhas e que o exprime através da tinta na sua caneta (quer dizer, duvido, ele deve fazê-lo no computador hoje em dia). “Acorda de uma vez por todas”, não há nada que eu te queira dizer mais que isto, gritar, até, nos teus ouvidos até te rebentar os tímpanos e até entrar alguma réstia de bom senso nessa irritante consciência tua. Só que eu abstenho-me, porque em tanta coisa tens razão.

  Passo agora a explicar: não me passa ao lado a minha própria e tamanha estupidez, brutal densidade, deficiente comunicação (curioso e/ou triste se se tiver em conta que estou num curso com “comunicação” no nome) e brilhante esprit de l’escalier. Não não, nada disto me escapa: acontece é que pouco consigo fazer para mudar. Ei, o que é que queres que te diga, são genes, sou eu, já me devias conhecer. Eu não vejo coisas que estão à minha frente a não ser que que leve com elas nos miolos, falta de experiência no assunto, talvez, é difícil explicar, e surge repetidamente. Depois também não sou particularmente bom a exprimir-me, odeio linguagens, sabes – escritas, faladas, vão dar ao mesmo, obstáculos a uma verdadeira compreensão, haja saúde. Não ajuda nem sequer perceber-me a mim mesmo metade das vezes, caso à parte, parece-me (e daí, talvez não). Honestamente. Como é que te vieste meter no meio disto? Faço essa pergunta inúmeras vezes ao dia, juro que ainda não encontrei resposta satisfatória. Enfim, abstenho-me porque eu sou eu, porque tenho noção disso e não consigo passar sem ter conhecimento desse facto, porque nunca fui ninguém e tenho largas dúvidas que alguma vez venha a ser, e porque tu, apesar de parva, és uma pessoa espantosa que merece o melhor que o mundo tem para oferecer. E eu nunca te tiraria isso.

  Não cheguei a explicar o que é que é “L’esprit de L’escalier“, pois não? Deixa estar.

  Queria-te escrever uma carta a sério mas desconhecia um modo de te a entregar. Também duvido que a aceitasses. Não sei. Estive a ler as conversas todas de novo, foi essa a razão que me levou a fazer aquela exclamação, a escrever isto em primeiro lugar, o distanciamento é estranho, a perspectiva é estranha, e depois de tudo o que me disseste…  é estranho, simplesmente. Eu não sei. Mas pára de me pedir o que há tanto me pedes. Eu não o consigo fazer. Eu não o quero fazer. E eu acho que tu também não queres que o faça, ainda que não o admitas. Aliás, tenho a certeza que sim. Por isso não vale a pena. Podemos, no entanto, fazer um concurso de teimosia. Até que era giro! Talvez não?

  Eu não me quero despedir, e tu já o fizeste, “Olha foda-se” hein, acho que sim, acho mesmo que sim, também não serias a pessoa por quem sinto o que sinto se não fosse assim. Mas é nesta parte que te peço desculpa para aí pela centésima vez.

  Desculpa, ó Tu do mundo branco. Eu amo-te.

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