Voar em Terra

As deambulações dementes de uma sombra cansada

Month: July, 2011

O Sopro de uma Noite

O Sopro de uma Noite

  Está a nevar. Uma camada de branco cobre todo o meu campo de visão, não lhe vejo o início tanto quanto não lhe consigo ver o fim, ia jurar que sempre lá esteve mas estaria a mentir, os meus olhos não estão abertos assim há tanto tempo e eu estaria a mentir, é estranho, é-o de uma forma demasiado acentuada e ao mesmo tempo não sei, não que não o saiba na verdade mas às vezes tento não saber, penso que será preferível fazê-lo, mencionei outrora que o mundo nunca se iria moldar à minha imagem por mais que quisesse e contudo vejo agora que a realidade é diferente, tenho pena que não o tenha visto mais cedo mas assim são as coisas, também não teriam interesse se fossem de outra forma qualquer quando este está no desconhecido, na escuridão cujo entendimento não deverá ser igual àquele que se tem usualmente, é uma aventura no seu todo, uma busca por uma história que vimos ser repetida tantas vezes enquanto crianças, já tinha esquecido a sensação, ou talvez nunca a tenha sentido sequer, não sei, ou tento não saber, há vezes em que é preferível fazê-lo…

  E há vezes em que o oposto se aplica. A ingenuídade só é uma virtude quando a queremos ver como tal e encontrar uma maneira de lhe fugir é a melhor solução a longo prazo, já não somos quem éramos mas hoje somos quem somos, não me arrependo disso, não me posso arrepender, não seria capaz de viver se o fizesse, não tenho força suficiente, a memória é uma coisa maravilhosa se não tivermos que lidar com o passado e isso é algo que eu aceito por ausência de melhor alternativa, é impossível lutar por mais que queira, o único conforto que encontro é em saber que o presente está nas minhas mãos, nas nossas mãos, e que podemos fazer dele o que bem entendermos, se bem entendermos, sem que haja alguma coisa a impedir que o façamos.

  Eu acredito. E eu acho que tu também acreditas, apesar de tudo, lá no fundo, onde te gostas de esconder e eu preciso de gritar para te atingir, eu acho que sim, porque te conheço, porque apesar de te dizer que não compreendo eu consigo fazê-lo, e é doloroso às vezes, exactamente por isso, mas eu não te consigo largar e tu sabes, não há maneira de não saberes.

  Pedir-te-ia desculpa se não soubesse já que as acumulas, culpa minha, é certo, como temo que o é tudo, há coisas que não se podem remediar…

Voar em Terra

Voar em Terra

  Nunca pensei que pudesse ser tão pesado, o acordar, o abrir dos olhos para enfrentar uma realidade que julguei abandonar quando os fechei, contudo a desesperança é evidente e tão alucinados pensamentos nunca tiveram lugar na minha mente, noutra altura perguntar-me-ia acerca da sua origem mas a inocência é agora uma palavra oca, digna apenas duma loucura que não encontra a sua dependência aqui. É exasperante imaginar o que imaginei, ou porventura ponderar que a sua existência é tudo menos certa, diria que surgiram lágrimas, todavia o sentimento é outro, um mais perplexo e envergonhado na sua natureza, resultante da uma simples paralização do tempo.

  Se há dias em que desgosto ser quem sou, este será um deles. Longe de solitário, certamente, este lugar estabelece-lhe precedente, a agonia de um destino incerto encontrou sempre o mesmo sabor, passado ou presente, pouco lhe interessa na sua amargura intemporal, arrastada por uma fama que insisto lembrar por motivos desconhecidos. Saberá quem é porque não faria sentido que fosse de outra maneira, embora por vezes me questione se o fará, realmente, ou se a reflexão ainda deriva para sítios incertos, longe da verdade que se impõe logo à partida.

  É impossível voar, repete uma voz incomodativa, quiçá essa possibilidade ainda se estenda até aos meus pés, os ventos mudaram e gostaria de crer que não, no fim não sou eu que decido, ou talvez seja mais do que penso, é um desesperante desespero, tal como o é, e sempre foi, sentir o ar e permanecer em terra.