Longe

by João Abreu

eden

  A rodopiar pelos ares, como que a dançar, está tudo aquilo que vejo e que deixo por ver, à minha mercê talvez, ou não será este o mundo que me foi oferecido à nascença. Foi prenda, de quem, não sei bem, nunca perguntei, bastou-me saber que o tinha, que ele era meu, e que podia fazer dele o que me apetecesse para realizar a manuntenção à minha estimada megalomania. Mesmo se quisesse, não faço ideia a quem haveria de perguntar, não conheço ninguém para além de mim que me consiga compreender, ou por não quererem ou por não saberem, tanto faz, no fim o resultado é igual.

  Continuo, portanto, nesta minha realidade, a pensar, a voar, a fazer tudo aquilo que quiser, e a ela, construo-a de modo a que ela me construa a mim, numa infinita fatalidade, numa dimensão sem limites, como senhor absoluto de todo o nada que vejo e que deixo por ver, porque sou eu, porque sou eu, porque afinal sou eu! Aspiro por tudo aquilo que não desejo, porque sim, porque nem eu consigo conter tão intragável loucura que me possui e que me compele a ficar cada vez mais louco!

  De repente, vazio. Encontro-me no meio do nada. Paraliza-me o medo do meu lado humano, não aguento mais, quero ser libertado desta natureza insuportavelmente limitada, livrar-me deste destino que faz de mim quem sou, uma indefinição, uma sombra, um entretanto que existe apenas quando algo não existe. Revela-se a verdade, sou nada, em todo o lado sou nada, um paradoxo duma existência sempre tão incerta e insegura, sou não existente e ainda assim, cá estou, muito para além de tudo aquilo que conseguem compreender. Quero regressar ao tempo em que que eu não era, simplesmente para voltar a não ser…

  Por isso, por favor… por favor, ajudem-me.

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