Voar em Terra

As deambulações dementes de uma sombra cansada

Month: October, 2009

Longe

eden

  A rodopiar pelos ares, como que a dançar, está tudo aquilo que vejo e que deixo por ver, à minha mercê talvez, ou não será este o mundo que me foi oferecido à nascença. Foi prenda, de quem, não sei bem, nunca perguntei, bastou-me saber que o tinha, que ele era meu, e que podia fazer dele o que me apetecesse para realizar a manuntenção à minha estimada megalomania. Mesmo se quisesse, não faço ideia a quem haveria de perguntar, não conheço ninguém para além de mim que me consiga compreender, ou por não quererem ou por não saberem, tanto faz, no fim o resultado é igual.

  Continuo, portanto, nesta minha realidade, a pensar, a voar, a fazer tudo aquilo que quiser, e a ela, construo-a de modo a que ela me construa a mim, numa infinita fatalidade, numa dimensão sem limites, como senhor absoluto de todo o nada que vejo e que deixo por ver, porque sou eu, porque sou eu, porque afinal sou eu! Aspiro por tudo aquilo que não desejo, porque sim, porque nem eu consigo conter tão intragável loucura que me possui e que me compele a ficar cada vez mais louco!

  De repente, vazio. Encontro-me no meio do nada. Paraliza-me o medo do meu lado humano, não aguento mais, quero ser libertado desta natureza insuportavelmente limitada, livrar-me deste destino que faz de mim quem sou, uma indefinição, uma sombra, um entretanto que existe apenas quando algo não existe. Revela-se a verdade, sou nada, em todo o lado sou nada, um paradoxo duma existência sempre tão incerta e insegura, sou não existente e ainda assim, cá estou, muito para além de tudo aquilo que conseguem compreender. Quero regressar ao tempo em que que eu não era, simplesmente para voltar a não ser…

  Por isso, por favor… por favor, ajudem-me.

Waltz

Instabilité

Podes fazer um esforço, ou podes desistir.

  Disseram-me, já há algum tempo, que essas são as únicas escolhas que um ser humano tem, independentemente da sua situação. Talvez não me tenha apercebido do verdadeiro significado dessas palavras na altura, mas ultimamente, não sei porquê, tenho vindo a compreendê-lo cada vez melhor. É estranho, vivemos com tal realidade desde que nascemos e ainda assim… ainda assim, tanto nos custa dar conta da sua inerente simplicidade, do seu imutável paralelismo.

  Não fomos feitos para isto, penso eu tantas vezes. Quem somos nós? Porque é que aqui estamos? Criamos um gigante universo em volta da nossa vida, quando nem a isso sabemos responder. Não fomos mesmo feitos para isto. Mas espera. Talvez tenhamos sido. Talvez tudo isso não interesse? Que diferença fará saber ou não as respostas para aquelas perguntas? Aconteça o que acontecer, continuaremos aqui. Nada mudará. Mesmo que no fim não haja qualquer sentido essencial para as nossas vidas, para as nossas memórias, para tudo aquilo que chamamos de nosso e a que nos agarramos, não há nada que nos impeça de o criar.

  Por isso é que este mundo consegue ser tão interessante; quando cada um dá o sentido que entender àquilo que reconhece como vida, quando cada um constrói o seu próprio conceito de realidade, nunca limitado por nada nem ninguém, acho que logo aí é possível encontrar um determinado significado, uma determinada direcção.

  Fazer um esforço, ou desistir. A simples acção, assim como a simples inacção. Tentar, conseguir, ou não tentar e não conseguir, mas nem isso é fixo no meio da nossa definição do que é real. Porque existe mais um rumo à deriva, como nós.

  A rodar, a dançar, e a acabar sempre no mesmo sítio.