Voar em Terra

As deambulações dementes de uma sombra cansada

Month: July, 2009

(3)

eden

  Acordei pois, ou penso eu que sim, acho que não sofro de sonambulismo, quem saberá com toda certeza, bom, não faria muito sentido conseguir pensar em tudo isto se estivesse a dormir, confirma-se portanto que estou acordado se porventura alguém estivesse duvidoso desse facto, E daí não estás com grande cara, estás mesmo acordado, sim, sim, não vamos continuar com isto, estou mesmo acordado, ainda que o Sol me impeça de o demonstrar, habitual mudança de tempo pelo que parece. Levo as mãos aos olhos, melhor, já lá as tinha sem reparar, E então, descerro-os vagamente e fez-se luz, cliché eu sei, foi como me senti, útil tendência para a dramatização, deparo-me com uma silhueta feminina, Passa-se alguma coisa, não, não é isso, embora quase pareça que sim, de tão irreal que é.

  Conheci-a ontem à noite quando cá cheguei, após horas de andar perdido pelo meio da cidade, é um estranho sítio este, nada parecido com aquele de onde vim, tinham-me já falado dele mas palavras não lhe fazem justiça, vá-se lá saber o que fará, os sonhos talvez, embora sirvam apenas para quem os conseguir ter. Afoguei-me, num lugar onde até a mais miserável luz inundava o mundo em sua volta num brilhante mar de fantasias, afoguei-me, não nos canais que permitiam tudo isso, mas na beleza assombrosa que não me deixava chegar ao meu destino.

  E que destino esse, esse que me trouxe aqui, demasiado convoluto para a minha cabeça matinal, basta dizer que me trouxe perante uma rapariga, penso que uns anos mais velha que eu, estava também a viver na residência de estudantes para onde me dirigia, não sei bem qual é a situação dela, não lhe perguntei, mesmo se quisesse, duvido que teria conseguido, pouco faltava para cair para o lado que mais me pesavam as malas. Agora que penso, é um bocado esquisito que só estejamos nós os dois numa casa tão grande, disseram-me que iríamos ser quatro pessoas, a rapariga informou-me que uma delas tinha mudado de ideias, não me falou da outra, ou se falou, não me lembro, pergunto-me o que se terá passado, embora sendo honesto, prefiro que assim seja, é de maneira que ambos temos mais liberdade.

  Não te lembras do meu nome, aposto, e teria ganho, é uma sorte recordar-me do que quer que seja que se tenha passado ontem à noite, Sara, Não, Lara, Não era mais fácil admitires que não te lembras, nunca fui grande admirador de admitir derrota, Joana, Foi completamente ao acaso, não foi, De que é que isso importa, muito, sempre achei de mau grado não recordar o nome das pessoas, perdoem-me esta. Começa a soprar o vento, noto agora que ainda não me vesti, hábitos antigos, volto ao quarto e começo a escavar as malas em busca de roupa, tenho que arrumar isto tudo logo à noite, ainda vou cá viver por algum tempo.

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(interlúdio)

éden

  Porquê, ninguém me responde, Porquê, ninguém quer saber, serei o único a compreender, é impossível não verem o que se está a passar, este sítio, o estado em que ele se encontra, acham mesmo que conseguem fazer voltar tudo ao que era? O passado já foi, e foi o que foi – levou-nos à situação em que nos encontramos hoje – e ainda assim querem-no tanto, chamava-lhe de estupidez mas é algo mais, não é que não saibam, simplesmente não querem saber, convém-vos a ignorância…

  Já passei a negação, nunca a tive, nunca vi outra realidade que não esta, desconheço algo melhor, mas a solução, ou será que se pode mesmo chamar de isso, é fugir, é sair, é esquecer, mas a esperança tolda-vos e impede que verdade seja concretizada. Talvez um dia, talvez noutro, quem não tem mais espaço para néscias ambições sou eu, que quero algo bem mais plausível do que a vossa adorada quimera.

  Disparates intragáveis, ainda se dão ao trabalho de atribuir culpas, estejam descansados, se não fossem eles eram vocês, era uma meta inevitável esta que colocaram à vossa frente, fiquem contentes, Deus escolheu-vos para assumirem este compromisso; são os preferidos dele, fiquem contentes, fiquem contentes…! Incuráveis idiotas, ainda neste momento rezam a um tal de Senhor para que vos livre de tudo isto, pois fiquem sabendo, estão a rezar pelo vosso enterro, e admito que não sei o que seria melhor, que a divindade invocada se cumprisse ou que não.

  Abram os olhos e vejam a miséria, vejam os resultados das nossas acções e consolem-se ao pensar que ao menos não foram vocês a causar tudo disto, que não tiveram qualquer parte na pintura deste mapa cinzento, ou castanho, porventura ambas, e durmam descansados por mais um dia, pelo menos até terem que repetir o mesmo ritual. É por isso que muitas vezes me falam de como era o mundo, dizem até que o conseguem ver de vez em quando, só se for em sonhos, por mais que olhe vejo sempre o mesmo, têm pena de mim, e eu deles, não há mais espaço na Terra para sonhadores, se já não o há para sonhos.

  Não há nada para mim aqui. Os desejos que guiam estas pessoas perdem-se em mim, e os que me guiam perdem-se neles, não cobiço por mais tecnologia, não espero uma solução vinda de exactamente aquilo que nos trouxe até este ponto, quero somente sonhar, não por tempos melhores, mas piores, pelo hoje, pelo ontem; já cá não estaria eu…

(2)

edeno

   De repente há silêncio, a chuva parou, entra em cena um meu conhecido, o céu está a abrir. Desço as escadas que se encontram ao canto do quarto, ou será sótão, mais parece isso, espanto-me com o que vejo, assim haverá de ser por bastante tempo, é um quadro tão singular este em que me encontro, talvez só para mim por falta de hábito. Com a vista descolada das janelas, vejo que não está mais ninguém aqui, terá alguma coisa se passado, abro as portas que dão para uma espécie de corredor à volta da casa, é com alguma surpresa que vejo que estou no meio do mar, num pontão talvez.

    “Acordaste, finalmente!”

(1)

éden

  Parecem enamorados. O modo como ela o olha, como ele a reflecte, se eu não soubesse o que sei, diria que estavam enamorados. Sei-o, no entanto, e talvez não o saiba ao todo, Onde estou, Porque estou, pergunto-lhes mas ignoram-me, mantêm a solenidade que os faz, que os une. Chove, também aqui, não a sinto mas ouço, que será este lugar, pondero milhentas respostas, quiçá uma estará correcta. Fizeram-me preso, por mais que ande no mesmo sítio fico, por mais que grite uma resposta não obtenho, estarei condenado para o resto da minha vida a presenciar tal alucinada paixão?

  Não… não pode, tem que haver uma razão, será destino, será vontade de Deus, será sei lá quê, resido agora no cimo de um oceano de vidro não por feitiço ou maldição, isso o sinto, mas por algo diferente, sei-o porque não temo, e se ao estar entre um casal de fingidos amantes não me chega o medo, é sinal que ele aqui não tem lugar. E o que terá, tirando nós os três, ou simplesmente eu, que parecem eles paisagem? Já não espero por respostas às minhas perguntas, faço-as simplesmente por fazer, porque não consigo evitar, porque me consolam de certa forma, e como me consolam, se não fizer perguntas o que farei, neste infinito fim, o que farei?

  A chuva piorou, noto-o pelo som dela a bater em algo familiar, veio acompanhada de algo diferente desta vez, uma voz, duas aliás, repetem-se sem parar, as suas palavras ecoam nas invisíveis paredes que me rodeiam, melodias hipnotizantes deste meu sonho.

Vejo-te, Lua

Vejo-te, Mar

  Abertos os olhos, estranho a enorme clarabóia que me cumprimenta logo de madrugada, lá fora chove torrencialmente, Onde é que estou, recordo-me vagamente do que me trouxe aqui, carrego-me até às portas envidraçadas que dão para a varanda do quarto, é mesmo verdade, afogo os olhos em azul, claro indício de que não estou onde estive toda a minha vida, claro indício de que a minha realidade mudou. Esperei tanto tempo pelo dia de ontem, pelo dia em que pudesse deixar para trás tudo o que tomei como certo durante tantos anos, parte de mim ainda não acredita no que aconteceu.

  Mas é verdade, tudo o que abandonei, tudo o que senti ao o fazer, nada disso pode ser falso, nunca me conseguiria iludir tanto, e se conseguisse, certamente que terias vindo comigo.