Um Além

by João Abreu

Quem és tu, ou porque te vejo?

  Há dias em que te vejo, vejo-te e pergunto-me, serás tu, será uma miragem dos meus desejos, confusão muito familiar neste meu emaranhado de pensamentos e considerações que tanto se debruça sobre ti, talvez só de aparência, mas que bem passava por tal. Por vezes. Noutras, as diferenças são avassaladoras, questiono-me se és a mesma de sempre ou se na minha mente reside a culpa, quem sabe, poderá também habitar no estimado criador, perdoem-me, pois esse mal não faz, embora tal presunção me deixe por vezes duvidoso, tal é a heresia. Acusa-se o Homem, portanto, não tenho culpa de ser quem sou, poderia ter nascido rã, ou pássaro, ou lá o que seja, mas cá estou eu como estou e como sou, é por este contentor que te imagino como algo que desconheces, quiçá melhor ou pior, argumento pior pois tu não és, e sempre se aprecia mais aquilo que a mão sente, e também o coração, um mais que o outro, e desta bem se sabe qual deles é.

  És mesmo tu, eu o sei porque te vejo, e te ouço, e te cheiro, e te sinto, e outras encenações tão particulares daqueles que julgam estar enamorados, mais pelo conceito do que pela cuja dita, realidade bem enterrada sobre todos os preceitos e conceitos, com uma mistura pelo meio, que a sociedade tão alegremente nos educa, faltando apenas um suave balir e um verde pasto para completar a imagem. Ignoro isso por agora, que agora me ofusca o teu calor, o teu odor, a tua voz, a tua face, teus olhos ou teus cabelos, por cliché ou não, e me sossega tais pensamentos, que somente te afastam de mim.

  Vem, não fiques aí, não há nada aí para ti, escusas de procurar, vem para perto de mim, podes vir, ou podes, será que podes, ou que queres? Ajudo-te se estiveres perdida, consolo-te se a situação o pedir, amo-te mesmo que ela não o faça, e tu, que farás tu, e não falo para quem faz o que eu penso que irás fazer, mas sim para ti: que farás tu? Nesse além, nesse teu horizonte, vives e continuas a viver, sem mim ou comigo, podes vir mas não o queres, não irei forçar, de que valeria tal esforço se não estivesses verdadeiramente aqui, sempre nesse além, nesse teu horizonte cuja existência supera por tanto a minha.

  Não te quero aqui assim, pois mesmo que te queira, e bem sabe Deus que sim, se existir e me perdoar tal insistência herege, quero acima de tudo o que tu quiseres, aquilo que pretenderes atingir e que te tornará feliz. Se não é ao meu lado, que não o seja, não te posso mudar tanto quanto as pessoas não mudam, ou tanto quanto não quero que mudes, gosto de ti por seres assim, caso um cambie, cambia o outro como consequência, ou talvez não, continuarias igual se deixasse de gostar de ti, coloquei a hipótese porventura porque isso não irá acontecer, justificado por um conjunto de razões e argumentos muito para além da sua capacidade de existência, pelo menos nesta linguagem.

  É impossível não sofrer com essa tua decisão, somos Homens afinal, e como Homens que somos, queremos sempre saciar as nossas necessidades, viver os nossos sonhos, e saber que tu, meu sonho, não me partilhas como tal, destrona qualquer racionalidade ou razão que me domina e permite que seja possuído por algo diferente, algo mais verdadeiro, amargo também, assim é o trago na minha boca. Somos diferentes dos animais, somos racionais, somos superiores a eles, mas é mentira, cada bem tem um mal, tudo tem o seu balanço, e mesmo quando estamos ocupados a fazer o nosso papel nesta enorme peça de teatro de que chamamos vida, acabamos sempre por deixar quem realmente somos escapar, apercebendo-nos que não passamos de bestas que se seguram em duas patas e que se vestem bem.

  Que vida esta, e que vida a minha, ou a de todos, quem sabe, passamos uma eternidade à procura de justificação para a nossa existência, apenas para descobrir que não a há. Eternos miseráveis, sem dúvida, tentando sempre encontrar conforto noutra pessoa, em ti, tal como tu o encontras nesse além…

  Pedir-te-ia que me salvasses, mas que diferença faria, somos Homens, afinal.

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