Queres ver para além das núvens?

  Sentada, olho para o céu. Sempre à espera de algo, de um significado, de uma realidade… de um sonho? Não sei. Sei apenas que ele reside para além deste céu. Deste céu que nos engana ao chegar no horizonte. Deste céu que não vive senão suportado por terra e mar. É este céu que nos rodeia, é ele que me impede de chegar onde quero ir.

   “Porquê?”

   Não te iludas. Não é o céu que te limita. Não o culpes pela tua fraqueza, pela tua preguiça, por tudo aquilo que te falta. É culpa tua. Tu, que cambias a vontade pela ilusão, deverias conhecer à partida o resultado das tuas ambições. Agora sente-a. Sente a tua impotência. Perante tal sonho, encara a tua inaptidão de o concretizar.

   “Não… recuso-a.”

   Recusa-a quanto quiseres, mas é das únicas verdades que conhecerás na tua vida. A restrição humana é demasiado poderosa para a conseguires superar. Contenta-te com aquilo que tens. Cinge-te àquilo que os teus braços alcançam. Não és especial. Nem todos têm a possibilidade de ter o que querem, o que desejam. Neste mundo real, injusto, como o queiras chamar, tu não és ninguém.

   “Mas”

   Chega. Não farei mais parte no teu mundo de fantasia. Compreende duma vez por todas que a realidade é o que é, não o que queres que seja. Deixa-te de quimeras absurdas, abre os olhos.

   “…”

   Tens razão. Tudo o que disseste, é tudo verdade. Não o nego… melhor, não o posso negar. E no entanto, também não sou capaz de viver com isso. Estou restringido ao meu ser, às minhas capacidades, mas isso não significa que deva parar de tentar atingir o meu objectivo. Porque apesar de ser como sou, apesar de ser impotente como disseste, a verdade é que nunca irei parar de tentar. É quem eu sou, é a minha existência inútil e persistente, irritante e teimosa. Porque sabes… mesmo que no fim não seja capaz de superar a realidade, sou incapaz de desistir do meu sonho. E é por isso que vou conseguir. É por isso que um dia, não interessa quando, vou chegar perto dela – dela, que passa os dias sentada a olhar para o céu – e vou ser capaz de lhe perguntar.

  “Queres ver para além das núvens?”