Morning Haze (Prólogo)

  É Setembro, é o fim do Verão. A chuva bate incessantemente nas janelas da sala. Ouve-se por todo o lado aquele ruído característico, indescritível. Ofuscado por algo muito maior no entanto – por algo mais sonante, mais forte.

  Melancolia. É ela que se faz sentir por toda a sala. É ela que se deita uma e outra vez sobre a folhagem cuja sombra cobre o edifício inteiro em dias melhores. Nunca ausente, hoje revela-se mais que o habitual. Na palidez dos rostos, no desespero dos suspiros, num ambiente incomodativo mas familiar. Não gosto destes dias. Fazem-me relembrar o passado, as escolhas que fiz, os meus erros. E tudo para quê? Independentemente do que fizer, nada irá mudar. O passado manter-se-á um sonho inatingível, apenas restando memórias de um presente que o tempo levou.

  Enganador, o tempo. Ilude-nos constantemente, mente-nos ao dizer que cura tudo, seduz-nos com a sua aparência infinita. Chegamos ao fim apenas para perceber que foi tudo em vão. É o príncipio inexorável da vida, não é? Só no fim é que damos conta daquilo que ficou por fazer, do que perdemos, e do que ganhámos e a que não demos o seu devido valor. Tomamos tudo o que temos como garantido – é um erro comum e ingénuo, embora inevitável tendo em conta a natureza humana.

  Acredito que somos quem somos e porém, não consigo resignar-me à fatalidade das minhas lembranças. Não por querer alterar o caminho que me trouxe até onde moro hoje, mas porque me consome o facto de não conhecer as alternativas. Por não saber que realidade me aguardava tendo eu entrado noutra porta. Se essa seria melhor ou pior que aquela que enfrento neste momento…

  Enfim, é impossível escapar à influência deste ambiente quando o próprio edifício emana algo soturno, misterioso até. A agitação habitual desencontrou-se no caminho para cá, talvez pela névoa que dura já desde madrugada. A escola não é a mesma nestes dias. É inundada de pensamentos vazios, de metáforas sem sentido, de poesia… Em tempos tentei escrever poesia. Dias colados a uma folha numa tentativa mal sucedida de fazer palavras rimar.

  De fazer sentido do mundo.

  De fazer sentido dela.