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Destino

Destino

 

  Sempre odiei esta palavra. A simples ideia de que, independentemente do que façamos, do nosso esforço e da nossa vontade, nunca seremos capazes de alterar o rumo que nos foi desenhado outrora é inconcebível. Recuso-a tanto quanto não posso passar sem o fazer – é-me impossível aceitar um mundo em que os meus actos não dependem da minha própria volição, em que não sou mais que um fantoche despido de toda a responsabilidade e valor por uma sina qualquer e preciso de algo mais, de um significado maior, de saber que as coisas realmente interessam e que não fazem simplesmente parte de algo inevitável.

  Não me importo de carregar aos ombros as consequências de tudo aquilo que fiz ou deixei por fazer, são testemunhas da minha vivência e da minha existência algures na linha temporal deste imenso universo, e não permito que o façam por mim. Eu sou quem sou, e exactamente por isso é que nunca ninguém senão eu obterá todos os meus sucessos e cometerá todos os meus erros. É um peso tremendo, e admito que há dias em que mal me consigo levantar, mas ainda assim… ainda assim prefiro este sofrimento à comodidade do destino.

  Porque o que eu te disse na altura, o que eu sentia… por mais encavacado que tenha sido, nada disso mudou, e não há um dia que passe em que ele não surja, não como algo predestinado mas como o seu exacto oposto. A realidade não me atinge de outra maneira…

Mudo

Mudo

 

  Já nem disso precisas, ó Luz. Escapaste, fugiste do vazio que te aprisionava, do que te mantia afastada de tudo aquilo que a razão teimava em guardar e desapareceste. É insuportável a forma como aquele sítio te reflecte, mais até do que o era na altura e ainda assim nada se compara a este descalabro. Dizer-te-ia para voltares, mas não sei se o quero tanto quanto duvido que me obedecerias. O taciturno silêncio corria inveterado já há demasiado tempo e por vezes pergunto-me se foste mesmo tu a causá-lo.

  É que eu lembro-me. Neste miserável e destituído consciente por onde vagueias agora, eu lembro-me de tudo. O seu significado, no entanto, perde-se na vaguidade do pensamento, no vacilo da hipótese, e o que resta é um nada impossível de compreender que conheço em demasia. Talvez esteja à procura de algo que não existe, de uma justificação para o injustificável, mas não me é possível acreditar na ofuscação do sentido quando a minha realidade não é essa. 

  E daí, talvez a realidade não seja minha.

Chuva

Chuva

 

 

  Sonhei contigo outra vez, hoje. Era de noite e a chuva não parava de cair. Não sei bem onde estávamos, era um local familiar mas ao mesmo tempo distante, característica realidade de quem dorme, distorcida por pedaços de memórias arrancados pela raiz e reorganizados de forma aleatória, era estranha, era estranha e porém eu conhecia-a inteiramente, sabia tudo o que havia para saber acerca dela, árvores a crescer em alcatrão e ruas sem fim de repente faziam sentido, ainda que não o fizessem na verdade.

  Estava frio. Sei-o pelas roupas que vestias, pelas mãos que não paravam de tremer por mais que tentasse, não o sentia, pouco interessava tão inútil sensação, mas tu, tu abraçaste-me por causa disso, perguntaste-me se eu estava melhor assim, e porquê, porque é que até em sonhos elas insistem em cair, o quão ridículo isto é, que eu sou, estava à espera de quê, é apenas natural, porque é que havia de ser diferente, porque é que havia de ser capaz de te sentir quando o mundo não passava de uma absurda fantasia?

  Desconheço o que te tinha trazido ali, o percurso daquela alucinação, e tudo porque não me lembro, simplesmente. A normalidade reside nesse esquecimento e todavia tal não acontece quando tu entras em cena, tentativas atrás de tentativas de fazer desvanecer a tua imagem somente a tornavam mais manifesta, eu não sei o que dizer e não, eu não percebo, recuso perceber, evidentemente, embora contestável se o é consciente, qual é o rumo, para onde é que se move… talvez o futuro abra caminho para um sítio diferente?

Entreacto

Entreacto

 

  Congelou, parou de funcionar, simplesmente, O que é que se está a passar, o que é que tens, isto não é normal de ti, Eu sei, eu sei mas… não percebo, porquê agora, não faz qualquer sentido, é impossível fazer, o modo como o espírito se paralisou, como a mente se manteve em silêncio, não consigo controlar, tentativa após tentativa de recuperar a razão que se perdeu, de encontrar o caminho para um lugar menos afectado por tão sinistras entrelinhas, a inutilidade é assustadora, a verdade incontornável, atroz é a fadiga que me acompanha e decidi já não fugir, não vale a pena, nunca valeu.

A Harmonia do Nada

A Harmonia do Nada

 

  Para onde estás a olhar? Mal consigo acompanhar a trajectória que os teus olhos descrevem, o cenário que pintas na tua mente, desconheço as suas cores, as suas formas, questiono-me por vezes se vês o mesmo que eu ou se na verdade percepcionas as coisas de uma maneira diferente, é possível, é mais do que provável, a distância que existe é enorme e não há um dia que passe sem que ela se faça visível, dolorosa e um tanto mesquinha, tal como ela é, já não sei onde lhe pegar, a fuga da imaginação arrastou a lucidez consigo e abandonou-me friamente na fronteira da demência, valerá a pena, sequer, o ânimo, a contenção, valerá a pena continuar ou será que as luzes se apagaram?

  Não me convém a escuridão, regressar a tão amargo espírito, tão anestesiada vontade, custa pensar, até, saber que os pés têm que se mover apesar de tudo, qual é o interesse, o empenho, no meio de isto tudo só apetece desaparecer e a realidade não é senão cruel, um eterno jogo maquiavélico controlado por uma teia de desventuras e desencontros planeados com o intuito de se tornarem naquilo que são, nada mais, nada menos.

  Odeio isto, estar aqui, saber que… Enfim, destrói-me a alma tão completamente, a razão, o sentido, ia jurar que a única coisa que vejo és tu, e contudo continuo sem fazer a mínima ideia de para onde estás a olhar, não sei se intencional ou não mas ainda assim, o que eu quero, ou, o que tu queres, já mo disseste, não já?

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